Na aula mais recente da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, conduzida pelo professor Fernando Pimentel, percebo que meu processo de aprendizagem continua avançando de forma crítica sobre a compreensão instrumental das tecnologias, uma vez que estamos sempre sendo provocados a analisar as implicações sociais, culturais e educacionais que as tecnologias, quando inseridas de forma reflexiva, podem proporcionar nesses contextos. O desenvolvimento do Problema 3, “Informatização da sociedade e novos paradigmas sociais na educação”, desenvolvido pelos nossos colegas Elenildo e Bruno, tem sido significativo para esse momento.
Mais
do que compreender o funcionamento de plataformas digitais ou sistemas baseados
em inteligência artificial, fui convidado a aprender a problematizar o lugar
dessas tecnologias na organização da sociedade e, especialmente, no campo
educacional. Nesse sentido, meu entendimento é de que a atividade do PBL não se
limitou à resolução de um problema, mas funcionou como um dispositivo de
reflexão epistemológica sobre a própria relação entre tecnologia, sociedade e
educação.
Ao
analisar o caso proposto, compreendi que a informatização da universidade não
pode ser entendida apenas como um processo técnico. Conforme discute Castells
(1999), vivemos uma transformação estrutural marcada pela emergência de um novo
paradigma tecnológico centrado na informação, que reorganiza as bases materiais
da sociedade. Esse entendimento me ajudou a perceber que as mudanças observadas
no cenário do PBL não devem ser pontuais, mas fazem parte de um processo
histórico mais amplo de constituição da chamada sociedade em rede.
A
partir dessa perspectiva, podemos compreender que a digitalização da educação
está diretamente vinculada à lógica de produção, circulação e uso da
informação. Mais do que ferramentas, as tecnologias passam a estruturar
práticas sociais e educativas. Isso dialoga com as reflexões de Van Dijk
(2012), ao afirmar que as redes digitais não apenas conectam sujeitos, mas
reorganizam relações sociais, fluxos de informação e formas de poder.
Nesse
processo de aprendizagem, uma das principais questões que emergiu para mim diz
respeito ao papel dos dados na educação. Ao discutir a dataficação e o uso de
inteligência artificial, compreendi que estamos diante de uma nova forma de
mediação pedagógica, na qual práticas educativas são convertidas em dados e
analisadas por algoritmos. O estudo do CETIC (2025) reforça essa compreensão
ao destacar que a IA pode ampliar possibilidades de ensino e aprendizagem, mas
também levanta desafios éticos relacionados ao uso de dados, à privacidade e à
centralidade do humano no processo educativo.
Esse
ponto foi fundamental para o meu aprendizado, pois me levou a reforçar meus
questionamentos sobre uma ideia que normalmente percebo em discursos de quem
“vende” inovação para a educação: a de que mais tecnologia necessariamente
implica melhor ensino e aprendizagem. Ao contrário, minha compreensão, a partir
das leituras realizadas, reforça a ideia de que o uso intensivo de dados pode
tanto potencializar processos formativos quanto reforçar mecanismos de controle
e padronização.
Essa
reflexão se aprofunda a partir da leitura de The Technological Society (ELLUL,
1964), que compreende a técnica como um sistema que tende à autonomia,
reorganizando a sociedade a partir de critérios de eficiência e racionalização.
A partir dessa leitura, ainda que em sua versão traduzida, comecei a perceber
que o avanço das plataformas digitais na educação pode não ser neutro, mas
orientado por uma lógica técnica que nem sempre considera a complexidade dos
processos educativos.
No
entanto, ao articular essa perspectiva com o pensamento de Pinto (2005), essa
compreensão ganha novos contornos. Para o autor, a tecnologia não deve ser
entendida como um sistema autônomo, mas como uma produção histórica e social,
vinculada às relações de trabalho e às condições concretas de existência
humana. Nesse sentido, a técnica não se impõe de forma independente à
sociedade, mas expressa interesses, disputas e projetos sociais.
Não
tenho como objetivo comparar profundamente a compreensão dos autores, até mesmo
porque ainda estou em fase de apropriação dos estudos de Ellul (1964). No
entanto, destaco que esse diálogo me levou a compreender que, embora as
tecnologias digitais possam operar segundo uma lógica de eficiência e
racionalização, elas não estão desvinculadas das decisões humanas e dos
contextos sociais em que são produzidas e utilizadas.
Assim,
o uso de plataformas digitais na educação pode tanto reforçar processos de
controle e padronização quanto possibilitar práticas pedagógicas críticas e
emancipatórias, dependendo das intencionalidades e das mediações que orientam
seu uso.
Nesse
sentido, um dos aprendizados mais significativos que posso dizer que desenvolvi
a partir dessa experiência foi compreender a tensão entre autonomia docente e
governança algorítmica. Ao refletir sobre isso, percebo que a docência, na
cultura digital, passa a ser atravessada por sistemas que monitoram, avaliam e,
em certa medida, orientam as práticas pedagógicas. Isso me leva a questionar:
até que ponto esses sistemas contribuem para a aprendizagem ou apenas
reorganizam o trabalho docente sob novas formas de controle?
Ao
mesmo tempo, os estudos de Pimentel (2017) reforçam que a aprendizagem na
cultura digital não ocorre apenas pela presença das tecnologias, mas pelas
interações que se estabelecem entre os sujeitos, mediadas por esses recursos.
Esse aspecto foi essencial para minha compreensão, pois evidencia que, mesmo em
ambientes altamente digitalizados, a mediação pedagógica continua sendo
central.
Dessa
forma, posso afirmar que estou aprendendo que:
•
a informatização da educação não deve ser apenas um processo técnico, mas
também social e cultural;
•
as tecnologias digitais podem reconfigurar relações de poder, conhecimento e
aprendizagem;
•
a presença de dados e algoritmos exige uma análise ética e pedagógica;
•
a inovação educacional depende muito mais da intencionalidade pedagógica do que
da tecnologia em si.
Além
disso, percebo que o próprio método PBL tem sido fundamental nesse processo de
aprendizagem. Ao partir de um problema concreto, sou levado a mobilizar
referenciais teóricos, dialogar com diferentes perspectivas e construir
hipóteses interpretativas. Nesse movimento, aprender deixa de ser um processo
de assimilação de conteúdos e passa a ser uma construção ativa, crítica e
situada.
Por
fim, compreendo que a grande contribuição dessa aula foi deslocar meu olhar: de
uma visão instrumental das tecnologias para uma compreensão crítica, que
considera suas implicações sociais, políticas e pedagógicas. Assim, mais do que
aprender sobre tecnologias digitais, estou aprendendo a pensar a educação na
cultura digital.
CASTELLS, M. A
sociedade em rede: a era da informação: economia, sociedade e cultural. São
Paulo: Paz e Terra, 2007. v. 1.
CETIC.br;
NIC.br. Inteligência artificial na educação: usos, oportunidades e riscos no
cenário brasileiro. São Paulo: Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR,
2025. Disponível em: https:/
/cetic.br/media/docs/publicacoes/7/pt/20251124074142/estudos_setoriais-ia_na_educacao.pdf.
ELLUL, Jacques.
The Technological Society. New York: Vintage Books, 1964. Disponível em: https:/
/voidnetwork.gr/wp-content/uploads/2021/09/The-Technological-Society-Jacques-Ellul.pdf
PINTO, A. V. O
conceito de tecnologia. Rio de Janeiro, Contraponto, 2005.
VAN DIJK, Jan. The Network Society. London: Sage Publications, 2012.
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