
Na aula do dia 09 de março de 2026, na disciplina Tecnologias Digitais no Ensino, conduzida pelo professor Fernando Pimentel, tivemos a segunda oportunidade de participar de uma atividade baseada em Problem Based Learning (PBL). A proposta consistiu em analisar um caso sobre inovação educacional em uma universidade pública brasileira que investiu fortemente em Tecnologias Digitais (TD), mas passou a enfrentar questionamentos internos sobre se tais iniciativas realmente representavam um processo de inovação pedagógica.
A partir da leitura e releitura do problema apresentado, nosso grupo iniciou a primeira etapa da PBL respondendo à pergunta: o que já sabemos sobre isso? Para responder a essa questão, mobilizamos os referenciais teóricos estudados ao longo da semana, especialmente autores que discutem Tecnologia, TIC, TDIC, inovação e aprendizagem.
Ao refletir sobre o conceito de tecnologia, retomamos o pensamento de Pinto (2005), que compreende a tecnologia como uma produção histórica e social da humanidade. Para o autor, a tecnologia não deve ser vista apenas como um conjunto de artefatos ou máquinas, mas como expressão do desenvolvimento humano e das relações sociais. Nesse sentido, entendemos que as tecnologias presentes na universidade do caso analisado não podem ser interpretadas apenas como ferramentas técnicas, mas como parte de um processo cultural e histórico mais amplo.
Essa reflexão nos levou a discutir também a diferença entre tecnologia, TIC e TDIC (já discutida em post anterior aqui em nosso blog, por meio da postagem Tecnologia, TIC e TDIC na cultura digital, e também na postagem ICT, DICT or DT? Which acronym should be used?, feita no blog da disciplina pelo professor Fernando Pimentel.
Reforçamos que a simples presença das TD no ambiente educacional não significa, necessariamente, inovação. Conforme discute Pimentel (2017), ao abordar a aprendizagem na cultura digital, os processos educativos estão inseridos em um contexto marcado por diferentes formas de interação, produção de conhecimento e participação dos sujeitos. Assim, a cultura digital exige transformações nas práticas pedagógicas e não apenas a adoção de novos dispositivos tecnológicos.
Outro conceito fundamental que emergiu na discussão do grupo foi o de inovação educacional. Ao dialogar com Masetto (2004; 2011), compreendemos que a inovação na educação está relacionada à transformação das práticas pedagógicas, à reorganização dos processos de ensino e aprendizagem e ao desenvolvimento de novas formas de mediação didática. Dessa forma, inovar não significa apenas introduzir tecnologia na sala de aula, mas repensar a própria lógica do ensino.
Essa compreensão também se aproxima da discussão proposta por Campos e Blikstein (2019), quando analisam as chamadas inovações radicais na educação. Os autores defendem que mudanças educacionais significativas não acontecem apenas com a introdução de novas ferramentas, mas com transformações estruturais nas formas de ensinar, aprender e organizar o currículo.
Durante a análise do caso apresentado, identificamos também conceitos importantes como cultura digital, ferramenta, instrumento e aprendizagem, especialmente a partir da perspectiva de Vygotsky (1991). Para o autor, os instrumentos e signos atuam como mediadores do desenvolvimento humano, possibilitando a construção do conhecimento por meio da interação social. Ao pensar nisso, compreendemos que as TD podem funcionar como instrumentos mediadores da aprendizagem, desde que estejam integradas a práticas pedagógicas significativas.
A partir dessas discussões teóricas, nosso grupo formulou algumas hipóteses iniciais para interpretar o problema apresentado. Uma hipótese que consideramos relevante foi a de que a gestão da instituição analisada compreendeu que a inovação institucional poderia ser demonstrada apenas por indicadores quantitativos, como o número de acessos às plataformas digitais ou a quantidade de disciplinas que utilizam recursos tecnológicos. No entanto, esses indicadores não necessariamente revelam mudanças qualitativas nas práticas pedagógicas ou nas experiências de aprendizagem dos estudantes.
Essa hipótese dialoga diretamente com diferentes estudos e discussões sobre inovação (BLANCO, 1995; PIMENTEL, 2015; 2017; MASSETO, 2004; 2011; 2020; MASSETO; NONATO; MEDEIROS, 2017; FILHO; KOBAYASHI, 2020), que apontam que, no contexto educacional, a inovação não pode ser avaliada apenas pela adoção de tecnologias, mas pela capacidade de transformar práticas pedagógicas e promover novas formas de aprendizagem.
Um aspecto muito interessante dessa experiência foi a própria dinâmica do grupo. Nosso grupo foi composto por pessoas com formações e experiências profissionais diferentes, o que inicialmente poderia parecer um desafio. No entanto, como todos haviam realizado as leituras indicadas previamente, percebi que estávamos cognitivamente organizados, compartilhando referenciais teóricos e epistemológicos comuns sobre tecnologia, inovação e aprendizagem.
Esse aspecto foi fundamental para o desenvolvimento da atividade, pois possibilitou um diálogo qualificado entre os participantes. Ao final da discussão em grupo, tivemos a oportunidade de socializar nossas ideias com o professor e com os demais grupos, em um processo de interação e mediação pedagógica conduzido pelo professor Fernando Pimentel.
Essa etapa reforçou, para mim, a importância da aprendizagem colaborativa e da mediação docente no processo educativo, especialmente em contextos que envolvem problematização e reflexão crítica. Ao final da aula, saímos com um novo desafio: desenvolver um infográfico (que estará na próxima postagem deste blog) sobre inovação educacional no contexto da cultura digital. Essa proposta nos convida a sintetizar visualmente os conceitos discutidos e a refletir sobre como as tecnologias digitais podem contribuir para processos educacionais realmente inovadores.
Mais do que encontrar respostas prontas, essa experiência com PBL me permitiu compreender que discutir tecnologia, inovação e educação exige uma análise crítica das práticas pedagógicas, das concepções de aprendizagem e das transformações culturais que marcam a sociedade contemporânea.
REFERÊNCIAS
BLANCO, R. Inovação e recursos
educacionais na sala de aula. In: COLL, C.; PALÁCIOS, J.; MARCHESE, A. Desenvolvimento
psicológico e educação: necessidades educativas especiais e aprendizagem
escolar. Porto Alegre. Artmed, 1995. v. 2. p. 307-321.
CAMPOS, R.; BLIKSTEIN, P. Inovações
radicais na educação brasileira. São Paulo, 2019.
MASETTO, M. T.; NONATO, B.;
MEDEIROS, Z. Inovação curricular no ensino superior: entrevista com Marcos
Tarciso Masetto. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 7, n.
1, p. 203–210, jan./jun. 2017.
MASETTO, M. T. Inovação na aula
universitária: espaço de pesquisa, construção de conhecimento interdisciplinar,
espaço de aprendizagem e tecnologias de comunicação. Perspectiva,
Florianópolis, v. 29, n. 2, p. 597–620, jul./dez. 2011.
________. Inovação na educação
superior. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 8, n.
14, p. 197–202, set. 2004.
________. Inovação no ensino
superior e formação por competências. Revista e-Curriculum, São Paulo, v. 18,
n. 3, p. 1275–1297, 2020. DOI:
https://doi.org/10.23925/1809-3876.2020v18i3p1275-1297
PIMENTEL, F. S. C. A aprendizagem
das crianças na cultura digital. 2. ed. rev. e ampl. Maceió: Edufal, 2017.
________. Jogos Digitais,
inovação e ensino na Saúde. In.: PIMENTEL, F. S. C.; SILVA, A. P. (Orgs.). Tecnologias
digitais e inovação em educação: abordagens, reflexões e experiências. São
Carlos: Pedro & João Editores, 2023. p. 23-42
PINTO, A. V. O conceito de
tecnologia. São Paulo: Contraponto, 2008.