Chegar à metade da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino me coloca diante de um exercício que considero central na formação em nível de doutorado: refletir sobre meu próprio processo de aprendizagem, reconhecendo avanços, limites e transformações no meu modo de pensar.
Logo no primeiro encontro, fui provocado por uma metáfora que, embora eu já a conhecesse de experiências anteriores, confesso que, neste momento, faz ainda mais sentido: a ideia do “copo cheio”. Ao ingressar na disciplina, trago comigo um conjunto significativo de saberes oriundos da minha formação em Licenciatura em Ciências Biológicas, do Mestrado em Educação e da minha prática profissional.
Esses conhecimentos, longe de serem descartados, constituem minha base formativa, tanto para o exercício da minha profissão quanto como subsídios teóricos e práticos para minha atuação enquanto pesquisador e estudante. No entanto, percebo que, em determinados momentos, esse conjunto de experiências também pode se transformar em um limite, na medida em que tende a reforçar minhas certezas. Caso eu não consiga sistematizar esses saberes de forma crítica, tais certezas podem dificultar a abertura para novas problematizações e descobertas.
Ao longo da disciplina, tenho sido constantemente desafiado a “esvaziar” esse copo, não no sentido de negar minha trajetória ou as perspectivas epistemológicas que sustentam minhas ideias, mas no sentido de suspender certezas, tensionar conceitos e me permitir aprender a partir de outras abordagens teóricas. Esse movimento tem sido fundamental para que eu avance de uma postura mais afirmativa para uma postura crítica e investigativa.
Nesse percurso, um dos principais avanços ocorreu no aprofundamento da minha compreensão sobre a tecnologia e suas possibilidades no contexto educacional, tema que já venho buscando compreender desde o mestrado, especialmente a partir do meu primeiro contato com as contribuições de Álvaro Vieira Pinto.
As leituras, as discussões e o desenvolvimento das atividades por meio da metodologia Problem Based Learning (PBL) têm contribuído significativamente para o meu entendimento da tecnologia para além de uma visão instrumental, reconhecendo-a como uma construção histórica, social e cultural, profundamente articulada aos processos de mediação e de produção do conhecimento. Posso afirmar que esse avanço não foi apenas conceitual, mas tem impactado diretamente minha forma de analisar práticas pedagógicas e discursos sobre inovação.
A dinâmica da disciplina, estruturada a partir da metodologia PBL, também tem desempenhado um papel importante nesse processo. De modo geral, reconheço que tenho buscado chegar preparado para as discussões, mobilizando leituras e tentando sustentar minhas contribuições com base em referenciais teóricos. Todavia, ao me autoavaliar com mais rigor, percebo que ainda estou em processo de transição. Em alguns momentos, avanço na problematização, em outros, ainda me aproximo de análises mais descritivas ou pouco tensionadas.
Essa percepção me leva a reconhecer um ponto fundamental. Ler e compreender não é suficiente. No nível do doutorado, é indispensável problematizar. E problematizar exige não apenas domínio teórico, mas também coragem intelectual para questionar, confrontar ideias e expor dúvidas.
Para a construção desta autoavaliação, realizei uma leitura cuidadosa do meu blog e, ao analisar meu portfólio, percebo que ele não se configura como um registro meramente burocrático. Há um esforço consistente de articulação teórica e de reflexão sobre as experiências vividas na disciplina. Apesar disso, reconheço que ainda posso avançar no sentido de torná-lo um espaço mais autoral, no qual minhas inquietações, dúvidas e tensões apareçam com maior intensidade. Ou seja, um espaço que reflita não apenas o que compreendi, mas também aquilo que ainda estou elaborando.
Entre os principais aprendizados até aqui, destaco:
a compreensão da tecnologia como construção histórica e social;
o entendimento das tecnologias digitais como mediadoras dos processos de aprendizagem;
a distinção entre uso instrumental e inovação pedagógica;
a problematização da informatização da educação, especialmente no que se refere à dataficação, ao uso de algoritmos e às implicações éticas desses processos.
Por outro lado, reconheço que ainda preciso avançar em alguns aspectos fundamentais, como:
maior aprofundamento teórico nas leituras realizadas;
ampliação do diálogo e da escuta dos colegas;
fortalecimento de uma postura mais crítica e menos descritiva em minhas produções.
Diante disso, assumo como compromisso para a segunda metade da disciplina aprofundar minha postura investigativa, buscando problematizar de forma mais rigorosa os conceitos discutidos, qualificar minhas participações nas atividades de PBL e tornar meu portfólio um espaço ainda mais reflexivo e autoral.
Ao final desta autoavaliação, reconheço que me encontro em um ponto de transição, entre o “copo cheio” de experiências e saberes construídos e a necessidade de esvaziá-lo continuamente para aprender de forma mais crítica. É nesse movimento de tensão, abertura e reconstrução que compreendo estar, de fato, aprendendo a aprender no doutorado.
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ResponderExcluirA metáfora do “copo cheio” realmente toca no ponto central da nossa formação: suspender certezas para permitir que a dúvida se torne investigativa, e não apenas descritiva. Também vejo o PBL e a construção do portfólio como caminhos que potencializam nosso aprendizado, e não como simples registros.
ResponderExcluirO reconhecimento de que ainda oscilamos entre a análise descritiva e a investigativa também é uma realidade para mim nesta metade do percurso. Penso que isso se deve à falta de aprofundamento teórico, à necessidade de parar de escrever para ler e investigar categorias e conceitos.
Nesse sentido, acredito que “esvaziar o copo” não significa abandonar tudo o que já sabemos, mas, sim, não tomar como definitivo o conhecimento que possuímos. A partir da literatura, podemos validá-lo ou contestá-lo.